Willian Barros de Abreu

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) acaba de concluir um trabalho que tem tudo para
causar impacto na saúde pública brasileira: um software específico para ser usado no atendimento do paciente com HIV.
O programa é capaz de armazenar as mais variadas informações, que vão de comportamento epidemiológico e uso de
medicações específicas para o HIV a resultados de exames laboratoriais. Ao mesmo tempo em que é usado, o sistema
alimenta uma base de dados que possibilita cruzar todas as informações automaticamente e apresentá-las na forma
gráfica. Nos retornos do paciente, o médico só alimenta o programa com novas informações.
O próprio software faz as modificações onde tem de fazer. 'Os recursos não servem só para economizar tempo, mas para
humanizar a consulta, já que o programa facilita os meios para o médico conhecer mais o paciente', explica William
Barros de Abreu, autor do software, batizado de Programa de Informações sobre Atendimento aos Pacientes com Infecção
por HIV (Piaph).
Para preencher os campos, o médico só precisa dar um clique. As opções de resposta são padronizadas. 'A gente passa
mais tempo preenchendo papel à mão do que atendendo as pessoas. Metade do tempo da consulta é desperdiçado com o
preenchimento de documentos', conta Gabriela Waghabi, infectologista do Centro de Referência e Treinamento de DST/
Aids (CRT-Aids), um dos centros com maior fluxo de pacientes do Brasil.
O HIV positivo produz um número gigantesco de informações médicas. Entre os documentos médicos que têm de ser
preenchidos num atendimento de qualquer sistema de saúde, estão relatório das consultas, pedidos de exames, receitas,
formulários de solicitação de remédios especiais para o HIV que devem ser enviados ao Ministério da Saúde e laudos
para permitir o acesso do paciente a benefícios.
Para a pesquisa clínica, o programa vale ouro. 'Já imaginou saber em minutos quais são as doenças oportunistas mais
freqüentes relacionadas a determinado remédio?', indaga Abreu.
As informações dos pacientes são sigilosas e o programa garante com segurança os dados uma vez que para entrar no
software, a pessoa é cadastrada, diz Abreu. 'Ela entra como médico, residente ou enfermeiro. Cada um com seu devido
campo de acesso', explica.
O programa da Unicamp começou a ser idealizado no fim da década de 90, quando a Unidade de Pesquisa Clínica da
universidade passou a participar de pesquisas clínicas nacionais e internacionais. 'Para conseguir qualquer dado de
pacientes da Unicamp, era um sufoco', lembra Abreu. Há dois anos, ele teve a idéia de transformar o software em
projeto de pesquisa para conseguir verba.
A aprovação do Ministério da Saúde foi rápida. O apoio veio na forma de equipamento técnico. Em troca, o ministério
tem o direito de usar o programa.
Em janeiro, Abreu foi a Brasília para exibir o programa, quando ele ainda estava em fase final de execução.
Participaram cinco centros especializados no atendimento ao HIV positivo.
Segundo o Ministério da Saúde, o 'software está sendo analisado para verificar se ele pode ser usado como ferramenta'.